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14 de abril de 2015

extravagância suíça

Hallo, todo mundo!

Março passou em branco aqui no blog, e eu juro que não percebi quanto tempo fazia que eu não postava alguma coisa. História não faltou, na verdade, mas parece que os dias estão ficando cada vez mais curtos pra fazer todas as coisas que eu quero e preciso fazer. E nessa de não conseguir dar conta de tudo, eu geralmente tenho escolhido ser uma boa mocinha bem à força mesmo e estudar ou ler sempre que aparece um tempo. A história de hoje já tá completando aniversário de um mês - heheeeee! Mas ainda ta valendo, né? Então vamos lá!

Ainda não consegui parar pra colocar em ordem os meus pensamentos sobre o que é trabalhar como Au Pair, mas tem duas coisas que eu posso garantir de cara. A primeira é que, na pirâmide sócio-econômica, eu tenho certeza que essa categoria de trabalhadores vem logo depois das pessoas que estão abaixo da linha da pobreza. Sério, gente! Talvez se eu não estivesse fazendo um curso intensivo - que, por ser todos os dias, é bem mais caro - eu ainda estaria melhor das contas. Mas não sendo esse o caso, posso garantir que o negócio é tenso e as informações sobre minha conta bancária para possíveis doações estão disponíveis sob requerimento.

A segunda verdade é que morar no mesmo lugar onde você trabalha pode ser sufocante às vezes. Essa sensação não depende necessariamente do seu bom relacionamento com as pessoas que moram com você ou do ambiente. Uma das grandes dificuldades de ser Au Pair é determinar quando você está simplesmente em casa e quando está trabalhando. Enfim. O fato é que, em quaisquer circunstâncias, escapar de vez em quando é uma questão de sanidade mental.

Tudo isso pra dizer que, desde que cheguei, apesar de viver contando moeda, eu resolvi que pro bem da minha felicidade eu não abriria mão de fugir da Alemanha todos os meses. Isso significa pensar mil vezes antes de comprar um chocolate na esquina, mas tem valido demais! E a opção que mais alegra o bolso e o coração é ir para a Suíça, minha segunda casa há muitos anos.

A última visita, há exatamente um mês, foi ainda mais especial porque era aniversário de Sarah. Ela fez uma programação mega especial. Aquela coisa bem propaganda da Insinuante, tipo "o aniversário é nosso, mas quem faz a festa é você". Cheguei numa manhã de sábado, e fomos tomar café da manhã juntas pra colocar as notícias em dia e planejar nosso domingo. No mesmo dia, no final da tarde, tive meu momento de tiete torcendo pra ela no seu jogo de futebol. E ela arrasa no FC Wil!

Acordamos cedinho no domingo, e a primeira parada foi uma que vocês já conhecem: a montanha Säntis. Não lembram? Foi aquela em que uma ventania quase nos jogou do pico do alpe ao chão - uma das poucas vezes em que eu achei mesmo que ia #partirferoz pro céu. Falo dela no post Montanha Abaixo. Pois bem. Ganhamos da mãe de Sarah dois vouchers pra irmos de novo a Säntis. Revivi mentalmente o desespero daquela ventania, e morremos de rir com a lembrança. E o tal voucher não era só pra visitar, mas também pra tomar café da manhã lá no topo. Deixe-me acrescentar que era um buffet num restaurante panorâmico. GENTE. Gente... Como explicar? Como se não bastasse o dia estar loucamente lindo e a vista ser maravilhosa, eu comi como se não houvesse amanhã. Novidade...

Eu adoraria dizer que fui uma lady e provei um pouquinho de tal coisa, etc. e tal. Mas a verdade é que minha alma downloadeou o Shrek e eu comi pra fazer honra a qualquer ogro. TRÊS PRATOS. Três pratos! Só de queijo foram oitos tipos diferentes. Essa sim seria uma vez conveniente pra ser levada por uma ventania. De tanto que comi, eu com certeza rolaria em segurança até o pé da montanha.


Conseguimos aproveitar a vista sem medo de morrer. E sério, se você me disser que o céu tem esse visual eu acredito na hora. A Suíça é simplesmente imbatível!


Da montanha, fomos para o último lugar que eu esperaria visitar no inverno: um parque aquático. E o melhor: com vouchers de novo! Com a minha renda de Au Pair eu não pisava lá jamaaaaais! O parque também se chamava Säntis, e ficamos lá umas boas horas jiboiando. Bom demais! A maior parte do parque é coberta, mas tem também piscinas do lado de fora. E pra nossa alegria o céu estava maravilhosamente azul, ainda que o dia não estivesse quente! Não podia tirar foto lá, mas aí vão algumas do site deles. Destaque pra jacuzzi quentinha a céu aberto (que não tá na imagem...) e a piscina de água salgada termal. Me senti bem diva nesse lugar, vou confessar.


Depois que os dedos estavam completamente enrugados de tanto tempo de molho, ficamos uma eternidade no chuveiro quentinho. Na hora de me trocar, tomei um susto ao olhar pro espelho à minha frente. Não foi muito, mas eu estava... bronzeada! Bronzeada do sol de inverno num parque aquático na Suíça. Meio hilário pra uma brasileira vindo de Natal. Não se enganem, entretanto. Continuo embranquecendo a cada dia que passa. Qualquer hora dessa me convidam pra trabalhar como vela humana. A melanina já me abandonou há tempos!


O domingo terminou mega especial, indo ao culto na igreja de Sarah com direito a Mc Donald's no final, e na segunda de manhã já era hora de voltar. Ir à Suíça sem ver meu irmão e sua família (que moram no lado francês do país) também não é a mesma coisa, mas a gente só vai até onde as contas alcançam, né? - literalmente. Deixar a Suíça sempre me faz sentir uma dorzinha no meu coração, mas quem sabe se não vai chegar o dia em que eu não vou ter que me despedir? ;)

Bom, esse foi o primeiro de alguns relatos atrasados. Nos próximos dias volto aqui pra falar das últimas aventuras na Romênia, na Polônia e na Áustria. E aqui em Munique também, claro!

Bis bald!

6 de janeiro de 2015

montanha abaixo

Hallo, gente!

Hoje é feriado aqui em Munique. Exagerei da boa vida acordando quase às 10 da manhã. Depois do café, fui dar uma andada com minha Gast (Gastmutter = host mother/anfitriã) pra aproveitar o dia lindo de sol. Olhem que lugar fofo eu tenho pertinho de casa:


Na Suíça, assim que 2014 foi embora, começou a fazer sol. E sério, sol e neve é uma coisa linda demais! Não por muito tempo, na verdade, porque a neve derrete e vai ficando escura. Mas ainda assim, não tem como não amar o céu azul sobre o chão branquinho. Neve é daquelas coisas lindas, mas que dão trabalho. Imagina acordar todo dia com o carro assim:


Mas que é lindo, isso é! <3
Aproveitando o tempo lindo e os vouchers que ganhamos da mãe de Sarah, decidimos que o dia 2 seria dedicado às montanhas. E sem tem uma coisa na natureza que eu amo, mais do que qualquer outra, é montanha! Ou amava. Porque sério, em todo meu encantamento e admiração, eu jamais poderia prever o que Säntis e Kronberg reservavam para nós. Se eu alguma vez na minha vida relacionei montanhas a calmaria e tranquilidade, acho que vou pensar mil vezes da próximas vezes que esse tipo de ideia me ocorrer.

Começamos com Säntis, a montanha mais alta da região de Appenzell, com uma altitude tíiimida de 2,5km. Subimos em um teleférico, admirando pelas janelas de vidro a gigante nevada. Absolutamente maravilhosa!



O teleférico nos leva até um prédio de uns 6 andares, que começa com um pequeno museu sobre a montanha e os arredores e termina com um terraço exatamente no topo da montanha. Lá dentro tem uns dois ou três restaurantes, todos com vista panorâmica. Paramos primeiro em um andar intermediário. Do lado de fora, as pessoas lutavam contra o vento. Mas todo mundo rindo e achando maravilhoso. Abrimos a porta para e vimos que a luta era séria, mas nada que tirasse o nosso bom humor. Além do vento fortíssimo, o frio fazia todas as partes descobertas do corpo quase congelarem. Até falar era meio que um sacrifício. Com uma vista destas de presente, não há dúvidas de que valeu a pena:



Mas que é que vai a uma montanha e rejeita a oportunidade de chegar ao topo? Impossível! Subimos mais uns lances de escada até chegarmos no último andar. Ah, essa felicidade...


...que durou só até abrirmos a porta. Quando demos o primeiro passo, o chão era praticamente só gelo. Sem exagerar, dessa vez. O solado liso da minha bota não podia ser pior praquele tipo de piso, e com o vento soprando umas quinhentas vezes mais forte do que no andar abaixo, eu e Sarah segurávamos as mãos uma da outra freneticamente enquanto escorregávamos. Eu olhava pras duas barras de aço paralelas que nos ~protegeriam~ de uma queda daqueles singelos dois mil e quinhentos metros e só conseguia pensar em uma coisa: "eu to gordinha sim, mas eu tenho certeza absoluta que eu passo por entre essas barras!". E gente, vocês já viram aqueles desenhos animados em que as pessoas vão escorregando e voando por causa do vento? Sem tirar nem pôr, era assim que a gente estava! A câmera no meu pescoço, pesada, era a primeira a querer voar. A bolsa que eu estava carregando, meio redonda e sem zíper, inflava como um pára-quedas - mas eu tinha certeza eu ela não ia parar queda nenhuma minha, pelo contrário!

Mais treinada que eu, Sarah se movia muito mais rápido. E eu eventualmente BERREI - tanto pra falar mais alto que o vento quanto pra dar vazão ao meu desespero - pra ela andar mais devagar. E além do topo, tinha também o TOPO DO TOPO, e Sarah estava destinada a me levar até lá. Isso significava subir mais uma escada, mas dessa vez do lado de fora, fazendo equilibrismo no gelo e quase rastejando pro vento não me levar.

Quedinha na escada pra descontrair...
A última vez que tinha ficado com medo de morrer foi no Quênia, quando peguei uma ameba (ok, ameba no Brasil ta de boa, mas se você nunca entrou em um hospital queniano, não queira nem saber). Na minha cabeça, eu já visualizava as manchetes de jornais falando sobre os corpos encontrados ao pé da montanha no dia seguinte. O medo foi tão grande que eu só me aventurei a tirar uma foto.



Quando finalmente, segurando nas paredes e aproveitando qualquer segundo de trégua do vento, conseguimos voltar pra dentro do prédio, nos olhamos perplexas. O que tinha sido aquilo? As gargalhadas que vieram a seguir foram, com certeza, mais de terror e alívio do que de graça.


Sentamos para tomar um chocolate quente e café mais que merecidos, pensando ter deixado todo o perigo para trás. Ó, ilusão! Ainda tínhamos uma montanha pra visitar, e tudo o que eu sabia era que nosso voucher dava direito a uma descida de sled. Eu já tinha feito sled uma vez, com meus sobrinhos, e estava animadíssima para fazer novamente. As doces imagens que eu tinha na minha cabeça ao pensar em sled eram assim...


Descobri a traição da minha ingenuidade assim que, chegando lá, Sarah me informou que eram 7km de descida. Engoli seco e não hesitei em continuar. Resolvemos almoçar ali mesmo, no restaurante ao pé da montanha, pra depois seguirmos em frente.


Observando as pessoas ao nosso redor, a conclusão - nossa e delas - era uma só: se havia naquela lugar duas pessoas inapropriadamente vestidas, éramos nós. Os jeans, jaquetas e botas regulares se destacavam em meio a uma multidão de roupas e equipamentos de neve. Quando estávamos finalmente na fila (enorme!), já chegando no teleférico, uma tiazinha à nossa frente me olhou de cima abaixo e deu aquele sorriso com a boca meio apertada. Aquele sorriso de pena.


Olhamos para cima, e o céu estava preto. Olhamos de novo, e a névoa cobria o topo da montanha. Não dava pra ver nada. Uns segundos depois, estava chovendo ali mesmo. Ótimo. Mas é claro que nenhuma de nós, cabeças duras, queria desistir. Entramos no teleférico e, a cada metro mais perto do pico, minhas pernas bambeavam mais. O que danado a gente estava fazendo ali?


Sem carteira ou dinheiro ou cartão nos bolsos, uma vez que estávamos no pico, só havia duas alternativa de descida: a pé ou de sled. Assim que fizemos nossa primeira tentativa a bordo do sled, extremamente frustrada, e contemplei o penhasco que estava sempre à nossa direita, sem proteção nenhuma, pensei que sim!, havia uma terceira alternativa para descer: levada pelos paramédicos, com  pelo menos as duas pernas quebradas.

Os primeiros trinta minutos foram cabulosos, assustadores. A gente não conseguia dirigir aquela coisa de jeito nenhum! Sempre acabávamos indo para a direita, perto demais de rolarmos montanha abaixo. Nesse trecho inicial, o declive era grande mesmo, e realmente não havia muita neve desse lado direito da pista - nosso ponto fraco. Só depois é que a pista foi se estendendo mais pelos lados e dava pra sentir um certo alívio sabendo que, se caíssimos, cairíamos sobre a neve.


Cada vez que tentávamos deslizar mais um pouco, acabávamos perdendo o controle e caindo uma por cima da outra, e ambas por cima do sled, ou o contrário. Eu queria sentar e chorar. Apenas isso. E eu sei que Sarah também. Nenhuma de nós poderia prever que seria daquele jeito - ainda assim, assumimos que foi muita ingenuidade ter pensado que não teríamos problemas ali. Decidimos ir andando, e eu me movia na velocidade de uma anta com as quatro patas machucadas. O branco da neve doía nos olhos, eu via aura (aqueles pontos e figuras brilhantes) o tempo todo e estava só esperando o momento de torcer o calcanhar andando sobre o gelo com a minha bota DE SALTO (minha gente, DE SALTOOOO! não alto o suficiente pra eu ser a Gisele Bündchen, mas alto o suficiente pra incomodar).

Depois dessa meia hora, paramos em um restaurante pra eu ir ao banheiro. Olhei ao redor tentando reconhecer algum outro meio de transporte, mas nada. Quando pegamos a estrada nevada mais uma vez, as coisas começaram a melhorar. Eu descobri que podia ajudar a guiar o sled colocando minha mão nos apoios traseiros, em vez de deixar os braços na cintura de Sarah. O maior desafio de toda tentativa de descida era nos mantermos na pista e sobrevivermos aos "quebra-molas" que se formam nela. Não é divertido, não é engraçado. É doloroso. Um deles foi gigante o suficiente para mandar Sarah voando, mergulhando de boca na neve, e eu admito que ri com a cena. Desculpa, amiga!. (Chegando lá embaixo, ela contou que um deles foi gigante o suficiente pra quebrar uma vértebra de uma amiga ela - que graças a Deus não teve sequelas. Fiquei aliviada por ela ter me contado isso depois que sobrevivemos). Em um outro momento, passamos por tantas ondas e levantamos tanta neve que o rosto e a jaqueta de Sarah e ficaram completamente cobertos de neve. Ri disso também. Alto! E o que dizer da hora em que ela disse que estava fazendo xixi nas calças por causa do balanço? Amiga, me perdoa!

O cansaço maior estava nas pernas, sem dúvida. Além de mantê-las estendidas enquanto deslizávamos, elas eram nosso volante e nosso freio. E acredite em mim, você não vai querer saber o quanto dói ter seu calcanhar insistentemente esmagado em uma velocidade relativamente alta - ainda mais usando uma bota DE SALTO (onde eu estava com a cabeça?). A gente foi aos poucos se acostumando com as quedas e melhorando sutilmente nossas habilidades com o sled, mas ainda estava muito difícil. A chuva foi ficando mais forte. Eu vestia duas camadas de calças, mas Sarah tinha apenas uma. Seu jeans já estava encharcado, e em um momento ela confessou que não estava sentindo as pernas. Tava caro o preço a pagar pelas nossas cabeças duras.

Em um momento a gente de fato parou, contemplando o fracasso, e, sentadas no sled, oramos. Sério. Já estava desgastante demais, física e emocionalmente. Se não fosse Deus, quem mais ia ajudar a gente a descer? E de verdade, as coisas mudaram muito a partir dali! Conseguíamos guiar o sled por muito mais tempo (chegamos a dois minutos!), conseguíamos rir das nossas trapalhadas e depois que as coisas ficaram legais percebemos o quanto éramos sortudas de estarmos ali juntas. Tenho muitas amigas que, mesmo sendo maravilhosas e estarem no meu coração, não lidariam com aquela situação do jeito que Sarah lidou. Se fosse passar por isso de novo e tivesse que escolher alguém pra ir junto, eu tiraria a mesma Sarah da minha Pokébola. <3 A gente tava completamente focada na missão de chegar lá embaixo. E a animação chegou ao ponto de tirarmos foto! Uhul!




Quando chegamos lá embaixo, mal podíamos acreditar que finalmente havia terminado! Deve ter levado umas duas horas pra gente descer, mas nos momentos mais difíceis parecia uma eternidade nada agradável. Sério, que alegria quando terminou tudo... e que dor! Meus tornozelos ainda sofrem como se tivesse sido ontem, e Sarah ficou com uns roxos nas pernas que provavelmente não vai sair tão cedo. É engraçado que, naquele dia, eu estaria indo pra Munique, mas minha Gast teve um compromisso e precisamos adiar pro dia seguinte. Nada daquilo teria acontecido se o plano original tivesse dado certo. E de verdade, eu prefiro mil vezes do jeito que foi!


Clique na foto pra ver o vídeo! \o/
Se eu iria nas montanhas de novo? Com certeza! Mas no verão :D Hehehe...

É isso, gente! Tô vivíssima e adoro ter mais uma história pra contar. Amanhã eu falo da chegada em Munique e podemos finalmente colocar o blog com os dois pés (oi?) na Alemanha.

Beijo!

5 de janeiro de 2015

hockey, chafariz e outras histórias

Oi, todos!

Mais um dia aqui no reinado de Merkel! Hoje fez um sol lindo em Munique - mas ninguém se engane: continua um frio de lascar. Entramos de novo na nossa máquina do tempo pra eu falar ainda de 2014 :)

É engraçado como, quando você não conhece uma língua, as pessoas podem estar falando o que quiserem a seu respeito e você continua com aquela cara de paisagem. No domingo (28), quando estávamos ainda a caminho da casa da tia de Sarah, onde comemoramos o Natal, estava eu toda sorridente para a janela do carro, amando o frio e a neve. Mal sabia eu o que Sarah, seu irmão e seu pai estavam ~macomunando~ a meu respeito. De repente, a oferta: se eu queria, no dia seguinte, ir assistir um jogo das quartas de final da Spengler Cup, um campeonato de hockey mega tradicional que acontece apenas desde 1923. Depois de pensar por um oitavo de milésimo de segundo, é claro que eu disse siiiiiiim! Na verdade, eu queria dar um grito, mas preferi evitar o choque cultural.

É claro que eu não entendo nada de hockey. Mas que oportunidade! Depois de confessar que na minha cabeça brasileira o esporte se resume a pessoas com roupas enormes se espancando sobre o gelo sem muita punição, eu fui perdoada e Sarah se propôs a explicar como tudo funciona (e gente! faz sentido!). O caminho de carro até Davos levou cerca de 2 horas. Fomos com o irmão de Sarah, Jeremias, e o amigo dele, Fabian. Chegando lá, paramos na casa de Fabian para uma preparação bem tradicional. Me serviram um pouquitinho de café - eu até pensei, "nossa, alguém esqueceu de avisar que eu sou brasileira" - e depois tínhamos que beber até deixar só o açúcar do fundo. Em seguida, a gente coloca uma bebida bem forte na xícara e... fuego! Com as chamas na colher, a gente vai caramelizando o açúcar até os grãos desaparecerem. Eu não sei como se chama, quem inventou, onde e por quê, só sei que fica uma deléeeecia e esquenta qualquer pessoa dos dedos dos pés até o couro cabeludo n-a-h-o-r-a. Muito propício pro frio que faz lá na montanha.


De lá fomos pra... hm... arena? estádio? como se chama o lugar onde as pessoas jogam hóckey mesmo?... enfim. Mas não sem antes pararmos pra beber alguma coisa quente de novo e, OBVIAMENTE, tirarmos foto com uma pessoa vestida de vaca, porque você pode até perder um campeonato super tradicional cujo ticket deve ter custado um rim inteirinho, MAS VOCÊ NÃO PODE DEIXAR PASSAR A CHANCE DE TIRAR UMA FOTO COM ALGUÉM VESTIDO DE VACA NA SUÍÇA. Ô, alegriiiiia!




Terminado o jogo (com vitória da Rússia! aêeeee!), eu e Sarah andamos até a estação pra pegarmos o trem de volta pra casa. Lá na Suíça, o controle dos tickets é feito dentro do próprio trem. E eu tenho certeza que o fiscal daquele em que nós estávamos se arrepende até hoje de ter entrado no nosso vagão... Quando ele parou exatamente na frente de Sarah pra verificar as passagens, do final do corredor vêm duas pessoas correndo: um adulto com a mão na boca de um menino que estava na frente dele. Não podia ser coisa boa. Imagina isso:


só que de vômito. BLEH! Gente, sem palavras. Ninguém estava acreditando. A sorte é que o menino parou ao lado de Sarah. Se fosse um pouquinho atrás, ela estaria até hora tentando se livrar dos efeitos daquele banho. Quem se lascou mesmo foi a pobre coitada que estava na frente dela. E o fiscal?... o que dizer?... suas roupas vermelhas foram instantaneamente banhadas pelo repulsivo fluido produzido no interior daquela criança - e ele impressionantemente não perdeu o humor! Eu jogaria a criança pela janela se fosse comigo. Fiquei verde, azul, amarela e todas as demais cores do arco-íris. Viajamos mais umas 2 horas inalando aquela essência agradabilíssima. E rimos horrores, é claro!

No dia seguinte, voltamos a Konstanz porque tanto eu quanto Sarah precisávamos comprar algumas coisas, e a Alemanha é infinitamente mais barata do que a Suíça. De lá, fomos cumprir um projeto que estava traçado desde setembro: ir a um restaurante chinês do tipo all-you-can-eat (não é bem um rodízio, mas você paga um valor fixo e come até chamar os paramédicos - o que nosso caso foi quase bem verídico, saímos de lá estourando!). Quando estávamos perto de sair, paguei o mico não só do ano, mas de todas as eras que virão. Eu estava "ensinando" a Sarah como tomar chá como uma dama, quando ela desatou a rir. Com a bebida fervendo na boca, eu também comecei a gargalhar - mas pelo nariz! Sério, não consigo nem tentar descrever os barulhos que minhas cavidades nasais fizeram!

Ao som da minha música otorrinológica, Sarah se acabava. E quando eu fui tentar engolir o chá pra conseguir gargalhar como uma dama, engasguei e vi a morte por alguns segundos. Tenho certeza que meu olho saltou das casinhas e voltou! Tenho certeza que fiquei mais vermelha que caranguejo na panela! Continuei emitindo sons indescritíveis, mas dessa vez acrescentando tosse. Quando finalmente conseguimos parar, olhei ao meu redor e vi muitos pares de olhos na minha direção. Ouvimos a música ambiente calminha e as conversas super silenciosas nas outras mesas... e gargalhamos ainda mais! Isso bem que poderia ter acontecido na beira da praia, comendo frango com farofa... mas não, pra ser inesquecível tem que ser na Alemanha, contrastando com a discrição de todo mundo que teve o infortúnio de compartilhar aquele lugar com nós duas. Ainda morro de rir lembrando do que foi aquilo!

No trem, já recuperada, comecei a sentir uma sede horrorosa. Dali não tinha como parar em lugar nenhum. E sério, eu tava começando a ficar desesperada (aguento fome bem, mas não suporto sentir sede!). E CLARO que exatamente nesse dia eu tinha esquecido em casa minha garrafinha rosa de água, minha fiel escudeira para todos os lugares. Só tinha uma alternativa... Em Konstanz, tínhamos comprado o Glüwein (aquela coisa maravilhosa da qual falei no post de ontem) mais barato do mundo! 1 litro por 99 centavos! Eu imagino o que os outros no trem devem ter achado ao me verem agarrada com uma garrafa de vinho como se fosse água. Mas gente, que alívio! Obrigada, Sarah, pelo registro desse momento ímpar minha vida!


Dia 31 chegou e o combinado era passarmos a virada do ano na casa de uns amigos de Sarah. Comemos Raclette, uma comida bem típica de lá, e jogamos Dog, um jogo de tabuleiro também suíço. Basicamente, entre comidas, bebidas, pessoas, móveis, jogos, objetivos animado e inanimados, eu era a única matéria não proveniente da Suíça. E sendo esse meu primeiro Ano Novo longe do Brasil, é claro que eu sabia que seria diferente. Mas sério, eu jamais poderia prever o quão DIFERENTE esse "diferente" significava. Como a reunião começou às 18h30, quando passou das 23h já estava todo mundo baqueado de comer tanto, e os assuntos das conversas foram minguando. Às 15 pra meia noite, estávamos ao redor da mesa literamente só esperando o novo ano chegar. B e m   s i l e n c i o s a m e n t e. Quando o relógio avisou que 2015 havia chegado, brindamos, dissemos feliz ano novo uns pros outros e boom - 20 minutos depois já estávamos a caminho de casa. Até os poucos fogos de artifício que pintaram o céu pareciam bem mais discretos do que a nossa gritaria brasileira - que, honestamente, dessa vez fez falta! Comemorar a virada do ano no modelo suíço foi, no mínimo, uma experiência antropológicas interessante. Mais uma vez, não tenho fotos.


Quase resolvi esconder que no dia 1˚ a programação foi comida de novo. Sério, ta ficando vergonhoso isso. Mas infelizmente sim. Fomos na casa dos pais de Sarah comer fondue - e putz!, fondue de queijo suíção não é uma coisa que você possa ignorar. Acho que nunca comi tanto queijo quanto nesses dias em que estive lá. Sem arrependimento.

No dia 2, o mundo quase perdeu duas grandes mulheres: Ana Luiza Augusto (cof cof) e Sarah Kammermann. E eu não estou exagerando. Estou sim. Gente, pensem numa SAGA. Uma saga com perigos, drama, gelo, neve, chuva e xixi nas calças. Tudo isso foi o que a gente viveu visitando duas montanhas no segundo dia do ano. Mas essa é uma história pra amanhã :)

Até lá, gente!

4 de janeiro de 2015

sobre os primeiros dias

IHAAAA!

Que coisa boa escrever esse post diretamente do meu quarto em Munique. Bem honestamente falando, só ontem a ficha finalmente caiu. Eu tô aqui, nessa terra cuja língua eu não domino, não tenho expectativa de retornar de vez e tudo à minha frente é completamente imprevisível. Que louco! Mas também que desafiador, animador, encantador... Sério, é muita felicidade finalmente viver algo que você sonhou por tanto tempo.

Claro que eu já tenho histórias pra contar sobre minha chegada em Munique, mas por enquanto quero falar dos meus primeiros dias aqui na Europa. Começar minha nova jornada na Suíça foi a melhor decisão que eu tomei. Depois de quase 2 semanas recebendo muito carinho, comendo os melhores chocolates e queijos do mundo, rindo com gente que eu amo e vivendo umas aventuras bem cabulosas (!!!) eu estou pronta pro que der e vier!

Os dias antes de eu voar da terrinha passaram como um piscar de olhos! Aproveitei minha última semana em Natal muito intensamente, visitando os lugares que eu gosto e fazendo algumas coisas inéditas, como surfar de stand up paddle. Foram muitos até logo's, e em cada um deles eu percebia mais um pouquinho que essa despedida não era como as de antes. Comemoramos o Natal antecipadamente também, e foi lindo, cheio de gente que eu amo! No dia seguinte, no aeroporto eu estava calma e cheia de felicidade. Já me achando o máximo por não chorar, quando eu sentei na poltrona do avião... desabei. Não saber quando eu vou abraçar de novo a minha família, os meus amigos e o meu cachorro despertou uma dorzinha que eu nunca tinha sentido antes. Novamente, a alegria era a mesma. Mas ela precisou dividir espaço com esse sentimento novo...



Calma, você não está bêbado. O foco que passou longe, mesmo.

Voei de Salvador pra Frankfurt com a Condor, uma companhia alemã. Me senti as pregas da chuteira do Müller falando alemão com as comissárias de bordo. Ao meu lado, veio uma tiazinha da Bahia que mora na Alemanha há uns 20 anos. Ela parecia estar trazendo Salvador inteira na bagagem, porque toda vez que eu me mexia encontrava alguma coisa dela no meu assento. Hehehe... Mas ela foi ótima e me deu umas dicas legais!

O controle de passaporte foi tranquilo, já que a minha documentação estava toda comigo e eu mostrei tudo de uma vez (contrato de trabalho, pré-matricula e o que mais ele quisesse). Quando o policial carimbou meu passaporte, eu pensei seriamente em pedir pra dar um beijo nele ou pra gente tirar uma selfie, ou sei lá, REGISTRAR AQUELE MOMENTO LYNDO! Graças a Deus o bom senso me impediu. Mas sério, eu queria. 

No aeroporto, fui recebida pelas amigas Sarah e Silvia. Eu já sabia que elas iam me buscar e estava super feliz de vê-las, claro! Mas a grande surpresa mesmo foi encontrar Raphael, que viajou duas horas de trem pra passar meia horinha comigo lá no aeroporto. Genteeee *________* Muito lindo!


O primeiro dia já começou bombando! Na saída do aeroporto, fomos pra casa de Sarah só pra eu tomar um banho e deixar as bagagens, e de lá #partiuAlemanha. Ela mora pertinho de Konstanz, uma cidade na fronteira, e a gente queria ir visitar o mercado natalino que ia terminar naquele dia. Tudo lindo! Comemos um hamburger inesquecivelmente delicioso e tomamos Glühwein, um vinho quente com especiarias que com certeza servem no céu - é muito bom!


Na manhã do dia seguinte, eu já estava a caminho de Lausanne. Encontrar meus sobrinhos, meu irmão e minha cunhada foi maravilhoso! As crianças estavam animadíssimas pro Natal e a casa lindamente decorada. Só faltava a neve aparecer... Nossa primeira celebração foi na noite do dia 24, com um jantar na base onde meu irmão e cunhada trabalham. E o que você come num Natal na Suíça? Hein? Hein? Fondue chinês, é claro! E sem brincadeira, é isso mesmo. Eu também fiquei chocada, amigos. No fondue chinês, você tem uma panela de fondue com água temperada na mesa, e vai cozinhando vegetais e carnes ao seu gosto. Comi horrooooores, mas isso não é novidade


Meus sobrinhos mal podiam esperar pelo dia 25, pra abrirem os presentes. Eu também mal podia esperar, mas era por causa do peru de Natal. Gente, sério, Natal sem peru existe? Minha cunhada e eu fizemos um tempero que ficou um pipoco. Teve farofa e tudoooo! Ô ceia feliz!


Quando eu já tava desistindo de orar pedindo neve, acordo no dia 26 e... Nárnia caiu na Suíça. Tudo lindamente branquinho, e não demorou nada pra gente correr lá pra fora e brincar na neve. Às vezes eu me sentia meio Elsa, às vezes eu me sentia meio Anna, às vezes eu me sentia meio Olaf - e juro que tive que conter mil vezes a vontade de cantar bem alto DO YOU WANNA BUILD A SNOWMAAAAAAN? (como tia, eu tenho que dar um bom exemplo pros pequenos, né?). 


Fiquei com minha família até o sábado, e sei que aquela semana não poderia ter sido melhor. Dormir embolada com meus sobrinhos, jogar e assistir séries com meu irmão e cunhada até altas horas, aproveitar a neve... e já falei do peru de Natal? O continente muda, mas a alma gorda permanece. :P Sério, já estou contando os dias para vê-los novamente <3.

Voltei de trem para a casa de Sarah e cheguei lá já na animação pelo que estava por vir! No dia seguinte, fomos pra igreja pela manhã. Foi lindo, mesmo que eu tenha entendido entre 0,8 e 1,2 por cento de tudo o que se disse. (Em minha defesa, eu preciso dizer que Suíço alemão é beeeem diferente do alemão que eu estou aprendendo.) No mesmo dia nós fomos pra comemoração natalina da família dela.

Já podem ficar com raiva de mim pelo que eu vou contar, eu mereço. Estávamos em um cenário d-e f-i-l-m-e. A tia de Sarah tem uma casa de trezentos anos de idade em Appenzell, interior da Suíça, belissimamente rústica e que ela tem transformado em um hotel-museu-casa-de-chá-galeria-de-arte pra quem quer ter uma experiência o mais suíça possível. Como se não bastasse o ambiente, a comida também era totalmente típica e deliciosa. Foi muito legal conhecer outros familiares de Sarah. Me senti muito bem-vinda mesmo! Agora me pergunte quantas fotos eu tenho desse momento tão único... ZERO (essa é a parte da raiva).

A gente só percebeu o tamanho da burrice quando já estávamos em casa novamente. Daí sobrou registrar pelo menos a cara de arrependimento :P



Bom, por hoje terminamos aqui, em 28 de dezembro. Amanhã eu conto das aventuras da semana e de como foi a virada do ano nessa terra nevada.

Até lá!